
Na noite de 11 de novembro, a Casa do Saber da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) foi palco do lançamento do livreto Cuidados e prevenção no enfrentamento à violência contra mulheres no Rio Negro. Fruto de um trabalho coletivo, o material reúne reflexões, vivências e estratégias de cuidado construídas a partir de diálogos entre mulheres de diferentes etnias da região, abordando formas de prevenir e enfrentar a violência de gênero.
Disponível para download gratuito no acervo do Instituto Socioambiental (ISA), a publicação foi organizada pelo Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN), em parceria com o Programa Rio Negro do ISA e a Faculdade de Saúde Pública da USP. O lançamento integrou a programação do II Módulo de Formação de Promotoras Legais Populares Indígenas e contou com canto e dança tradicionais apresentadas por mulheres da Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê (Coidi), seguidas de uma roda de conversa com representantes de instituições parceiras.
Na abertura, a coordenadora do DMIRN, Cleocimara Reis Gomes, destacou que a linguagem do livreto foi cuidadosamente pensada para alcançar especialmente as mulheres de base que têm o português como segunda ou terceira língua. “A gente tentou facilitar as palavras para que todas pudessem compreender o que está dentro desse livro”, afirmou. O Rio Negro abriga 23 etnias e três línguas cooficiais — baniwa, nheengatu e tukano —, realidade que reforça a importância de uma comunicação acessível e intercultural.
O material é dividido em três partes. A primeira resgata as ações colaborativas realizadas ao longo dos últimos cinco anos, incluindo um diagnóstico das violências contra mulheres na região e um resumo das discussões do I Módulo de Promotoras Legais Populares Indígenas, em 2021. A segunda reúne estratégias de enfrentamento, articulando práticas tradicionais com os serviços públicos disponíveis, sobretudo na sede municipal de São Gabriel da Cachoeira, para denúncias e acolhimento.
Elizângela da Silva Costa, liderança Baré e doutoranda pela Faculdade de Saúde Pública da USP, participou da elaboração do livreto e ressaltou o papel central dos saberes tradicionais. “Às vezes, a gente quer aprender mais leis, mas as leis ocidentais não estão diariamente com a gente no território. O que está são as plantas, as roças, as margens dos rios — eles curam as nossas vivências do dia a dia”, disse. Para ela, o resgate dos espaços de diálogo com as novas gerações é essencial para que os conhecimentos não se percam.
Além das práticas medicinais, como chás e banhos tradicionais, o livreto valoriza a sustentabilidade e a autonomia econômica das mulheres, por meio do artesanato, da agricultura e de outras atividades que fortalecem a renda e o bem-estar.
A terceira parte orienta a realização de rodas de conversa sobre violência de gênero, fornecendo caminhos para que lideranças locais possam promover debates e mobilizações em suas comunidades. Para Carla Dias, antropóloga do ISA e coautora da cartilha, o material é uma resposta direta às demandas das lideranças femininas. “Queremos que esse livro seja uma ferramenta de apoio, combinando estratégias próprias das mulheres com as políticas do Estado, para que todas possam viver bem”, destacou.
O processo de construção do livreto também envolveu pesquisas, oficinas, formações e trocas de saberes, como lembra a antropóloga Dulce Morais, do ISA. “Foi um trabalho coletivo que fortaleceu a participação das mulheres e resultou nesse registro tão importante”, afirmou.

Outro destaque são as ilustrações originais da artista Tukano Larissa Ye’padiho Mota Duarte, graduanda em artes visuais na Unicamp. Inspirada por suas experiências no território, Larissa buscou retratar nas imagens a força e a diversidade das mulheres do Rio Negro. “Desenhar é também escrever uma história, um sentimento, uma resistência”, afirmou.
A publicação foi elogiada por lideranças locais, como Edneia Teles, do povo Arapaço, diretora da Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer (SEMJEL). “Achei lindo, parecido com a gente. É raro vermos materiais assim feitos por nós mesmas”, disse, ressaltando a importância de compartilhar o conteúdo com mulheres que ainda não têm acesso a essas informações.
O livreto conta ainda com a contribuição do professor José Miguel Olivar, da Faculdade de Saúde Pública da USP, e de Janete Alves Desana, vice-presidente da FOIRN. O projeto gráfico e a diagramação foram assinados pela designer e ilustradora Kath Xapi Puri.
Com linguagem acessível, valorização cultural e conteúdo prático, a obra se soma aos esforços das mulheres indígenas do Rio Negro para enfrentar a violência de gênero com cuidado, autonomia e fortalecimento comunitário.
Saiba mais sobre o livreto: https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/mulheres-indigenas-do-rio-negro-lancam-livreto-sobre-enfrentamento