
os dias 11 e 12 de março de 2024, em São Gabriel da Cachoeira–AM, o movimento das mulheres indígenas do Alto Rio Negro escreveu mais um capítulo de sua história de luta, união e resistência. No encontro com o tema “Incidência Política e Comunicação das Mulheres Rionegrinas”, realizado na sala Dagoberto Lima Azevedo – Suegʉ, do Instituto Socioambiental (ISA), representantes de associações, lideranças comunitárias, jovens e convidadas se reuniram para debater os desafios e as estratégias para ampliar a participação das mulheres nos espaços de decisão e fortalecer suas vozes nos territórios e além deles.
Organizado pelo Departamento de Mulheres Indígenas da FOIRN (DMIRN), o evento reuniu representantes de associações como a AMIARN, AMIPK, ASSAI, APIARN, além de instituições como a Câmara Municipal, FUNAI, DSEI, Conselho Tutelar e Escola Estadual Irmã Inês Penha. Desde cedo, com café da manhã coletivo e recepção acolhedora, o clima já indicava que seriam dois dias de partilha profunda, escuta ativa e mobilização coletiva.
Política é lugar de mulher indígena
A mesa de abertura contou com falas potentes. A vereadora Suely Ambrósio destacou a urgência da equidade de gênero na política e colocou seu mandato à disposição das mulheres. O diretor Adão Francisco, da CAIBARNX/FOIRN, lembrou que fortalecer a política das mulheres é também fortalecer o movimento indígena como um todo. Já o coordenador regional da CAIBARNX, Ronaldo Ambrósio reforçou o papel essencial das mulheres de base, que levam o conhecimento às suas comunidades e mantêm a luta viva no cotidiano.
A coordenadora do DMIRN, Cleocimara Reis, apresentou a estrutura do departamento, sua missão, ações e desafios, enfatizando a necessidade de continuidade dos debates sobre segurança alimentar, violência obstétrica e valorização da medicina tradicional.
Em um momento sensível e necessário, relatos sobre experiências de violência obstétrica e doméstica tocaram o grupo, gerando empatia, apoio e reconhecimento da urgência de políticas públicas efetivas para a proteção das mulheres indígenas.
Cuidar da palavra, fortalecer a rede
À tarde, a psicóloga Geane Batista (DSEI Yanomami) conduziu uma roda de conversa sobre comunicação e escuta entre mulheres, abordando os desafios de interação e a importância do apoio mútuo. A fala de Belmira Melgueiro, articuladora do DMIRN na região CAIBARNX, reforçou a importância de preparar mulheres para ocupar espaços de decisão com segurança e autonomia, inclusive através da comunicação comunitária.
A professora Graça Castilho compartilhou sua trajetória no movimento indígena e a advogada Franciene Melchior (FOIRN) apresentou os principais marcos legais dos direitos das mulheres, como a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e outras formas de violência de gênero. Os depoimentos das participantes confirmaram o quanto ainda é difícil denunciar agressões e buscar justiça nos territórios.
Encerrando o primeiro dia, Ana Gabriela, tesoureira da AMIARN, apresentou os projetos e conquistas da associação formada por mulheres e jovens, ressaltando a importância de buscar parcerias e continuar os trabalhos com autonomia.
Fundo Indígena do Rio Negro: caminho para fortalecer os territórios
No segundo dia, Josimara Melgueiro, coordenadora do Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN), apresentou o histórico do fundo e explicou como acessar recursos para projetos de mulheres indígenas. Ela destacou a importância dos PGTA’s e das linhas temáticas apoiadas: segurança alimentar, cultura, economia sustentável e fortalecimento institucional.
Após a apresentação, mulheres de quatro associações (AMIBAL, AMIPK, AMIARN e ASSAI) compartilharam suas ideias de projetos, como: resgate de línguas, grafismos, parteiras e benzedeiras; instalação de internet; construção de casas de apoio; transporte comunitário; resgate das danças, cantos e artesanato; além da revitalização da cultura e da diversidade alimentar.
Durante a discussão, alerta sobre os impactos das tecnologias nos jovens e sobre a perda de práticas culturais tradicionais foram colocados com firmeza. A mensagem coletiva foi clara: é preciso educar para o uso consciente da internet e promover o resgate cultural com urgência.
Comunicação indígena como instrumento de resistência
Juliana Albuquerque, do Povo Baré, da Rede Wayuri, trouxe ao debate a importância do acesso à informação e o papel dos comunicadores indígenas. Ela explicou como a rede atua com rádios comunitárias, jornais, grupos de WhatsApp e rádio online, e destacou estratégias para combater as fake news e fortalecer a produção de conteúdo desde as bases. Em seguida, Raylene Andrade abordou o empoderamento feminino de forma direta e inspiradora. Ela falou sobre autonomia, autoestima e sororidade, incentivando as mulheres a promoverem rodas de apoio, campanhas, capacitações e participação ativa em espaços políticos.
A professora Bernadete Teixeira também incentivou as mulheres a participarem da política partidária, compartilhando sua experiência na luta por uma educação indígena de qualidade.
Território, clima e cultura: tudo está interligado
Encerrando o encontro, a articuladora Belmira conduziu uma roda de conversa sobre o papel das mulheres na defesa dos territórios e no enfrentamento às mudanças climáticas.
Foram discutidos temas como:
· protocolos de consulta e entrada de não indígenas nos territórios;
· envolvimento das mulheres na gestão territorial e ambiental;
· problemáticas do lixo nas comunidades e rios;
· segurança alimentar e saúde;
· resgate dos modos de vida ancestrais.
O diálogo foi intenso e gerou reflexões profundas sobre os caminhos para um futuro mais justo, saudável e culturalmente enraizado para os povos do Rio Negro.