Mulher indígena Rionegrina assume bolsa sênior na ONU Direitos Humanos

Alcineide Moreira Cordeiro, do povo Piratapuya, acaba de conquistar um novo passo na sua trajetória de luta e dedicação à defesa dos direitos humanos. Nascida e criada na comunidade de Iauaretê, no município de São Gabriel da Cachoeira–AM, região fronteiriça entre o Brasil e Colômbia, ela passou, neste mês de outubro, a integrar como Bolsista Sênior o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).

O programa possibilita que a Alcineide aprofunde a sua experiência nos mecanismos internacionais de direitos humanos, ao mesmo tempo, em que contribui com o trabalho do ACNUDH sobre os direitos dos Povos Indígenas tanto na sede quanto no campo. Essa conquista simboliza uma jornada marcada por desafios e superações, que a transformaram em uma das jovens vozes indígenas de maior projeção na área dos direitos humanos no país.

Cleocimara Reis – Coordenadora do DMIRN e Alcindeira Moreira em Brasília.

Em 2023, ela já havia participado do Programa de Bolsas para Indígenas e Quilombolas de Língua Portuguesa do ACNUDH, tornando-se uma das dez primeiras brasileiras selecionadas para a formação, realizada em Brasília e, posteriormente, em Genebra. Agora, retorna ao programa ao nível sênior, aprofundando os seus estudos e a sua atuação na temática.

Filha de agricultores, Alcineide deixou a sua comunidade ainda adolescente para buscar melhores oportunidades. Enfrentou dificuldades com o português e barreiras financeiras, mas não desistiu. Aos 22 anos, assumiu a presidência da Associação das Mulheres Indígenas do Distrito de Iauaretê (AMIDI), onde fortaleceu a sua liderança comunitária. Em seguida, passou a atuar na Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).

O sonho do ensino superior parecia distante, mas tornou-se realidade em 2019, quando ingressou pelo vestibular indígena da Universidade de Brasília (UnB). Tornou-se a primeira mulher indígena a se formar em Relações Internacionais pela instituição por meio das políticas afirmativas. Hoje, é também mestranda em Direitos Humanos e Cidadania no Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da UnB.

A trajetória profissional inclui ainda experiências como estagiária na Unidade de Monitoramento e Fiscalização das Decisões do Sistema Interamericano de Direitos Humanos (UMF/CNJ) e a cofundação do Projeto Mahsise, voltado para o ensino de inglês a estudantes indígenas da UnB.

Mãe de Talyson, Alcineide leva consigo a força da sua origem. Entre Iauaretê, Brasília e Genebra, constrói uma ponte entre territórios e saberes, reafirmando que a luta e a resiliência das mulheres indígenas da Amazônia podem alcançar espaços globais, sem jamais perder o vínculo com a comunidade que a formou.