Jovens e Mulheres Indígenas do Rio Negro trocam Saberes em intercâmbio em São Gabriel da Cachoeira

Durante três intensos dias — de 22 a 24 de abril de 2025 —, a Casa do Saber da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira, se tornou espaço de trocas, memórias e articulação política. Ali, cerca de 100 jovens e mulheres indígenas, representantes das cinco coordenadorias regionais da FOIRN (COIDI, CAIBARNX, CAIMBRN, DIAWI’I e NADZOEIRI), participaram do Intercâmbio de Jovens e Mulheres Indígenas, promovido pelo Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN) com apoio do Fundo Ayni. Mais do que um evento, foi um reencontro de gerações que vêm tecendo, com sabedoria e resistência, o fortalecimento das lutas por direitos, cultura e território.

Abertura com cantos, memória e reconhecimento
A recepção ficou por conta de Claudinha Ferraz, comunicadora da Rede Wayuri, que saudou cada participante lembrando que compartilhar é também uma forma de fortalecer. A mesa de abertura reuniu lideranças como Cleocimara Reis (DMIRN), Belmira Melgueiro (Fundo Ayni), Edison Baré (diretor da FOIRN), Melvino Fontes (Departamento de Educação), além de lideranças históricas como Gilda Barreto e Almerinda Ramos.
Com emoção, Cleocimara destacou que o evento foi planejado com carinho e escuta para que cada jovem e mulher se sentisse pertencente e protagonista da sua história. Para Belmira, coordenadora do projeto, o intercâmbio representa um marco, segundo ela, a luta por esse momento começou desde 2021. E hoje estão colhendo os frutos com os pés no chão e os olhos no futuro.

Histórias que ensinam e inspiram
Entre uma roda de conversa e outra, vozes como a de Gilda Barreto ecoaram com força. Gilda relembrou os primeiros passos do movimento de mulheres indígenas do Rio Negro, nos anos 90, e as muitas barreiras enfrentadas — desde da falta de recursos ao preconceito dentro e fora do movimento indígena.
Lembrou que chegou a carregar motor nos ombros, e remava sozinha para chegar às comunidades, fazia relatórios com lápis reaproveitado das minhas filhas… Tudo porque acreditava que a mulher indígena precisava ser ouvida e reconhecida. O depoimento da Gilda terminou sob aplausos emocionados dos presentes na Casa do Saber. Almerinda Ramos e Maria das Graças Castilho também compartilharam suas trajetórias de luta, destacando o papel transformador da educação, da organização comunitária e da autonomia financeira para as mulheres.

Juventude presente: entre desafios e esperança
A juventude teve um papel de destaque no intercâmbio. Lideranças jovens como Cláudia Wanano, Edneia Teles (SEMJEL), Mariete Pompilho (DAJIRN) e Josimara Baré (Fundo Ruti) relataram os caminhos já trilhados e os desafios de manter a juventude engajada. Segundo elas, o que falta, às vezes, é apoio, escuta, alguém que acredite. A juventude precisa saber que tem poder e que esse poder precisa ser exercido com responsabilidade e coragem. Cláudia destacou a importância da formação política e da comunicação: ela afirmou que nada do foi conquistado e que tem hoje foi fácil. As portas estavam fechadas, mas juntos — com mulheres, homens, jovens e apoiadores — foram abrindo cada espaço.

Apresentações regionais: potência na diversidade
As cinco regiões da FOIRN apresentaram experiências potentes. De iniciativas de geração de renda e dignidade menstrual da AMARONAI, ao trabalho com jovens e comunicação da Rede Wayuri, passando pelo resgate de saberes tradicionais em escolas vivas, como a de Assunção do Içana — os relatos mostraram que, apesar dos desafios, as mulheres e juventudes estão em movimento.
Associações como AMIARN, AMIPK, ASSAI, AMIDI e AMIRT apresentaram suas trajetórias, destacando dificuldades com registro jurídico, gestão de recursos e logística, mas também conquistas como participação em editais, oficinas de artesanato, projetos de segurança alimentar e formação política. Sônia, da AMARONAI, falou com orgulho sobre os absorventes ecológicos produzidos pelas mulheres: ela afirmou que é sobre saúde, autonomia e geração de renda. É sobre cuidar do corpo e da floresta.

Cultura, território e mudanças climáticas no centro do debate
A programação do último dia foi dedicada a temas urgentes: mudanças climáticas, manejo sustentável dos recursos naturais, práticas ancestrais e os avanços dos departamentos nos últimos cinco anos. A mediação foi feita por Belmira e Cleocimara, que organizaram grupos de trabalho com todas as coordenadorias. O depoimento da Sra. Virgília, do povo Baniwa, foi marcante. Ela afirmou que tudo está mudando: o rio, o sol, as plantas, os peixes. ‘‘Estamos adoecendo. Mas também estamos buscando nossas forças no nosso jeito de viver.” Luciene Veloso e outras articuladoras relataram impactos visíveis da crise climática, além dos desafios com a juventude e a perda de rituais.
As mulheres pediram mais apoio institucional e reforçaram o papel das articulações locais e do fortalecimento das associações para garantir que o trabalho continue.

Encerramento com canto, gratidão e continuidade
O intercâmbio foi encerrado com agradecimentos, entrega simbólica de notebooks para as articuladoras e a apresentação da dança carriçu pelos estudantes da Escola Viva de Assunção do Içana — um gesto de reafirmação da cultura como elo entre passado, presente e futuro.
Belmira, emocionada, reafirmou a importância das parcerias e apoio, destacando sua trajetória e o compromisso de continuar contribuindo sempre, e que sua missão como liderança é coletiva. Já Cleocimara agradeceu a todos os envolvidos e reforçou: “A luta continua, e com união seguimos em frente.”