Entre saberes e resistências: mulheres indígenas do Alto Rio Negro se reúnem para falar sobre violência e Mudanças Climáticas na comunidade Bom Jesus

No coração da floresta amazônica, às margens do Rio Negro, vozes femininas se levantam com força, sabedoria e ancestralidade para debater dois dos desafios mais urgentes de nosso tempo: a violência contra as mulheres e as mudanças climáticas.

Nos dias 4 e 5 de junho de 2024, a Comunidade Bom Jesus, localizado na região do Alto Rio Negro, recebeu um encontro promovido pelo Departamento de Mulheres Indígenas da FOIRN, a segunda atividade do projeto Fortalecimento das Mulheres Indígenas da Região CAIBARNX.
Com o tema “Violência contra a mulher e mudanças climáticas”, o evento reuniu lideranças femininas, jovens, conhecedores tradicionais, profissionais indígenas e parceiros para refletir, compartilhar experiências e buscar caminhos coletivos de enfrentamento e cuidado. O objetivo é fortalecer a rede de mulheres indígenas e ampliar os espaços de escuta, aprendizado e articulação em defesa da vida, da cultura e dos direitos dos povos do Rio Negro.

Abertura com canto, sabedoria e acolhimento
O encontro iniciou com um canto tradicional, um gesto simbólico e ancestral. Representantes de diversas associações marcaram presença: AMIARN (Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro), AMIPK (Associação das Mulheres Indígenas Putira Kapuamu), ACIARN (Associação das Comunidades Indígenas do Alto Negro), ASSAI (Associação das Artesãs de São Gabriel da Cachoeira) e OINV (Associação da Comunidade de Nova Vida).
A articulação do evento contou com a presença e o apoio de mulheres como a antropóloga Linda Luz, a advogada indígena Dra. Elizabete Morais (conhecida como Dra. Bete) e Hildete Araújo, coordenadora dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs). Em sua fala de abertura, a articuladora do Departamento de Mulheres da FOIRN, Belmira da Silva Melgueiro, destacou a importância da iniciativa, incentivando a participação ativa das mulheres e reconhecendo a força dos conhecimentos tradicionais no enfrentamento dos problemas contemporâneos.

Violência contra as mulheres: um tema urgente e profundo
No primeiro dia, as falas giraram em torno da violência doméstica e de gênero, ainda presente em muitos lares e comunidades. A advogada Dra. Beth trouxe informações fundamentais sobre a Lei Maria da Penha, destacando que a luta contra a violência começa com a conscientização, o diálogo e a construção de redes de apoio. Ela também falou sobre espiritualidade, alimentação saudável e tradições do povo Tukano, enfatizando como essas práticas influenciam o bem-estar das famílias e das crianças.
A professora Irene Gomes, do povo Baré, contribuiu com reflexões importantes sobre o consumo de álcool e seus impactos nas relações familiares e sociais. Com sabedoria, ela trouxe exemplos cotidianos que permitiram identificar situações de violência, muitas vezes naturalizadas no dia a dia das mulheres.
Na parte da tarde, um vídeo sobre a história de Maria da Penha emocionou as participantes, reforçando a importância da denúncia e da solidariedade entre mulheres. A partilha de experiências pessoais fez ecoar um sentimento coletivo: é preciso falar, enfrentar e transformar.

Mudanças climáticas: o impacto sobre os corpos e territórios
O segundo dia foi dedicado às mudanças climáticas, tema que preocupa cada vez mais os povos rionegrinos. Hildete explicou de forma clara e acessível os efeitos do desmatamento, das queimadas e das alterações no clima sobre a saúde das mulheres indígenas, a biodiversidade e os modos de vida tradicionais. A fala do AIMA, Edmar Brazão, complementou o debate ao abordar os desafios relacionados ao lixo e à gestão de resíduos sólidos nas comunidades.
Com criatividade, as participantes realizaram atividades em grupo, registrando em desenhos o calendário de suas roças, colheitas e queimadas, a partir das próprias experiências. Foi um momento rico de troca intergeracional e valorização do conhecimento local.
A jovem liderança Josimara Melgueiro compartilhou suas vivências em espaços internacionais como a COP28, destacando a importância de levar a voz das mulheres indígenas para o centro das decisões sobre o clima. Segundo ela, os modos de vida dos povos indígenas são soluções para a crise climática.
Já o articulador Helio Gessem reforçou a atuação da FOIRN e dos AIMAs na construção de alternativas sustentáveis que respeitam a floresta e seus povos.

Encerramento com festa, união e esperança
O encontro foi encerrado com agradecimentos e uma avaliação coletiva. As associações presentes reforçaram o desejo de manter vivas essas trocas e encontros. À noite, uma celebração cultural com jogos, danças e brincadeiras fechou os dois dias de diálogo e fortalecimento.
Para a Belmira, coordenadora do Projeto, o encontro ajudou a olhar para dentro das nossas comunidades e refletir sobre o que precisa mudar e o que precisamos fortalecer. E que a luta contra a violência e as mudanças climáticas começam pelas mulheres, que geram vida, que cuidam da terra e guardam as histórias do povo.
O evento na Comunidade Bom Jesus foi mais do que uma atividade de projeto: foi um ato de resistência, de cuidado e de afirmação. Uma prova de que, quando as mulheres indígenas se reúnem, a transformação começa a florescer.