
Entre os dias 19 e 22 de fevereiro de 2025, a Comunidade São Marcelino, no Alto Rio Negro, tornou-se um espaço sagrado de memória, resistência e cura. Foi ali que se realizou o 1º Encontro de Conhecedores Tradicionais da Região CAIBARNX, reunindo pajés, parteiras, benzedores e lideranças indígenas para compartilhar saberes, fortalecer vínculos e refletir sobre o papel das práticas tradicionais de saúde na vida dos povos indígenas do Rio Negro.
Coordenado pela Belmira Melgueiro, com apoio do Departamento de Mulheres Indígenas da FOIRN e do Fundo Ayni, o encontro teve como objetivo valorizar e reconhecer o papel vital que os conhecedores e conhecedoras tradicionais desempenham na manutenção do bem viver das comunidades. Participaram representantes da FOIRN, FUNAI, DSEI, além de lideranças locais, jovens e profissionais da saúde.
Abertura com escuta, espiritualidade e ancestralidade
O evento foi aberto pelo Edison Gomes do Povo Baré, diretor da FOIRN, referência da região CAIBARNX, que destacou a urgência de preservar os conhecimentos repassados pelos pais e avós. Segundo ele, quando esses saberes se perdem, essa perda não ocorre apenas uma prática, como afeta o equilíbrio do corpo, dos territórios e até do clima. A coordenadora Belmira ressaltou que o encontro é um passo necessário para garantir que os saberes tradicionais continuem vivos e acessíveis às próximas gerações. Representando a FUNAI, a Sra. Maria Irene Pena defendeu a valorização da língua materna como base da identidade indígena e alertou para os perigos da perda cultural frente ao avanço do consumo de produtos industrializados.
Histórias que curam: vozes da floresta
Ao longo dos dias, relatos profundos e emocionantes revisitaram a sabedoria milenar dos povos do Alto Rio Negro. O Jurandir dos Santos, da comunidade Yabi, compartilhou narrativas de criação e falou sobre a importância do ritual Kariamã, que fortalece o corpo e o espírito dos jovens. O conhecedor tradicional Faustino, aos 70 anos, disse nunca ter adoecido graças aos conhecimentos recebidos durante o ritual: de acordo ele, a medicina da floresta o acompanha desde a adolescência.
A parteira Antonica Albino relembrou seu primeiro parto e afirmou que fazer parto é dom de Deus. Não é por dinheiro, é por amor à vida. Outros relatos trouxeram reflexões sobre a importância dos benzedores, a necessidade de formação de novos pajés e o impacto negativo da colonização sobre os saberes tradicionais. O senhor Miguel compartilhou que acompanhou de perto os partos da esposa com o apoio de benzedores. Já o José, outro conhecedor traducional, explicou que algumas doenças não são espirituais, e que seu papel como rezador é acalmar os elementos naturais — como trovões e tempestades. Destaque também para o depoimento do conhecedor Denis TuKano, iniciado no benzimento desde os 11 anos, e do Nildo, que alertou sobre a extinção dos benzedores nas comunidades. Para ele é preciso ensinar os agentes de saúde a benzer.
Conexão entre saberes tradicionais e saúde institucional
No segundo dia, a enfermeira Tais informou que 34 parteiras estão oficialmente cadastradas, mas muitas outras seguem invisíveis no sistema. A médica Dra. Yasmim apresentou um aparelho moderno para detectar alterações uterinas, convidando as mulheres para realizarem exames ginecológicos — muitos pela primeira vez. A ação foi recebida com gratidão e esperança pelas participantes.
A psicóloga Jaqueline, do DSEI, promoveu diálogos sobre saúde mental, suicídio e depressão, buscando compreender como os saberes espirituais podem contribuir com o cuidado integral. O professor Juvêncio e o benzedor Denis abordaram a questão do sofrimento psíquico com profundidade espiritual. Segundo eles, o espírito, quando se parte, precisa ser chamado de volta ao banco da vida. Durante os grupos de trabalho, foram debatidas formas de integração entre a medicina tradicional e os serviços oficiais de saúde.
Entre as propostas:
Reconhecimento institucional dos pajés, parteiras e benzedores como agentes fundamentais de saúde;
Convite às parteiras para acompanharem atendimentos de pré-natal;
Atuação conjunta entre agentes de saúde e curadores tradicionais.
As atividades foram encerradas com a realização de exames ginecológicos para mulheres da comunidade, ações educativas sobre gravidez de risco e sinais de alerta, além de avaliações emocionadas sobre o impacto positivo do encontro.
Caminhar junto para não deixar saberes para trás
Na avaliação final, os participantes reforçaram a importância de dar continuidade a encontros como este, com mais tempo e mais apoio para registrar os saberes, envolver os jovens e garantir que as curas do corpo e do espírito permaneçam vivas nas comunidades.
A coordenadora do projeto, Belmira Melgueiro foi amplamente reconhecida por sua dedicação e sensibilidade na articulação do evento. Ela destacou que o encontro não foi somente sobre saúde. Foi sobre identidade, espiritualidade, resistência e futuro.
A comunidade de São Marcelino agradeceu ao Fundo AYNI, ao DMIRN e à FOIRN pela realização do encontro. O desejo coletivo é claro: que as vozes dos pajés, parteiras e benzedores não ecoem apenas no passado, mas continuem guiando os caminhos do presente e do amanhã.