DMIRN é reconhecido na Câmara dos Deputados durante a IV Marcha das Mulheres Indígenas e integra a histórica “Carta dos Corpos-Territórios”

Entre os dias 5 e 7 de agosto de 2025, o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN) esteve em Brasília para participar da IV Marcha das Mulheres Indígenas, um dos maiores encontros de mulheres indígenas do país. A delegação do Rio Negro cumpriu uma agenda intensa de incidência política, levando suas pautas diretamente a órgãos federais, ministérios e ao Congresso Nacional.

A presença do DMIRN ganhou destaque na Câmara dos Deputados, onde a atuação das lideranças foi reconhecida publicamente durante uma audiência e sessão solene. Esse momento reforçou a legitimidade do departamento como uma das principais vozes das mulheres indígenas na defesa de seus direitos, territórios e saberes.

Entre as pautas apresentadas, o combate ao câncer do colo do útero foi prioridade. Os dados são alarmantes: a mortalidade pela doença é 80% maior entre mulheres indígenas no Brasil, e um estudo de 2022 realizado na Amazônia revelou que a prevalência de lesões de alto grau é de três a quatro vezes maior entre indígenas de 25 a 64 anos em comparação às não indígenas.

As lideranças do DMIRN participaram de grupos de trabalho que discutiram gestão territorial, mudanças climáticas, violência de gênero, saúde e educação. Na audiência pública sobre os impactos do Marco Temporal e as ameaças à demarcação e proteção dos territórios indígenas, reafirmaram que a luta pela terra é inseparável da luta pela vida das mulheres.

No dia 6, em reunião com o Ministério das Mulheres, reforçaram a urgência de implantação da Casa da Mulher Indígena no Rio Negro — espaço de acolhimento e fortalecimento para mulheres em situação de vulnerabilidade. Ainda participaram da 4ª Mesa dos Planos de Vida e de encontros com o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Saúde, apresentando recomendações como:

  • fortalecimento dos fluxos de atendimento da saúde indígena;
  • prioridade no acesso ao SUS para casos oncológicos;
  • contratação de ginecologistas para atuação em terras indígenas;
  • realização de ações itinerantes com exames especializados;
  • produção de materiais informativos sobre prevenção e saúde reprodutiva em línguas indígenas.

Encerrando a agenda, no dia 7, estiveram no Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), discutindo políticas de segurança alimentar, fortalecimento das comunidades e acesso equitativo a programas sociais. A participação se encerrou na sessão solene da PL 4381/23 na Câmara dos Deputados, marcando de forma simbólica e histórica o reconhecimento do protagonismo das mulheres do Rio Negro no cenário político nacional.

A força da “Carta dos Corpos-Territórios”

Durante a IV Marcha das Mulheres Indígenas, que reuniu 5.000 mulheres de mais de 100 povos e todos os biomas do Brasil, foi construída coletivamente a Carta dos Corpos-Territórios. O documento, apresentado ao final do evento, é uma declaração de luta, identidade e esperança.

Nele, as mulheres afirmam: “Nosso corpo é território! Somos as guardiãs do planeta pela cura da terra!”, reafirmando a conexão entre a proteção do corpo e a defesa dos territórios. A carta denuncia violações de direitos, violência de gênero, degradação ambiental e emergência climática, destacando que os povos indígenas — apesar de serem os que mais preservam a natureza — são também os que mais sofrem os impactos da destruição ambiental.

O documento convoca à ação contra o Marco Temporal, o PL da Devastação e qualquer projeto que ameace as terras indígenas, reivindicando a demarcação, a implementação da PNGATI e o respeito à consulta livre, prévia e informada prevista na Convenção 169 da OIT.

A carta também propõe o fortalecimento da Bancada do Cocar, movimento para ampliar a presença de indígenas — especialmente mulheres — nos espaços de decisão política. “Seguimos construindo e fortalecendo a Bancada do Cocar e vamos alcançar um aumento expressivo do número de indígenas candidatas e eleitas para ocupar cargos públicos em todo o país”, afirma o texto.

Por fim, a carta encerra com um chamado coletivo:

“Somos guardiãs do planeta pela cura da terra. Nosso corpo é território. É terra, é água, é semente. E pela força do que somos, vamos transformar o mundo. Estamos em Marcha e caminharemos sempre pelo bem-viver!”

A presença do DMIRN na IV Marcha e sua integração na elaboração e defesa dessa carta histórica reafirmam o papel estratégico das mulheres do Rio Negro na construção de políticas públicas e na defesa dos direitos indígenas, com um olhar que une saúde, território, cultura e futuro.

Leia a carta na íntegra no link: https://anmiga.org/iv-marcha-das-mulheres-indigenas-reune-mais-de-5-mil-mulheres-indigenas-em-brasilia-e-lanca-documento-final-por-nossos-corpos-e-territorios-curamos-a-terra/