
Participantes da Conferência do Clima e das Florestas realizado em Berlim, na Alemanha.
Entre os dias 18 e 22 de outubro de 2025, foi realizada em Berlim, capital da Alemanha, a Conferência do Clima e das Florestas Tropicais, que reuniu cerca de 50 pessoas de três continentes (África, América do Sul e Àsia) e sete países — Tailândia, Indonésia/Papua, República Democrática do Congo, Bolívia, Colômbia, Brasil e Alemanha.
O evento, que teve como tema “Autodeterminação indígena, fontes de vida e o futuro das florestas tropicais: um diálogo entre os continentes”, foi promovido pela Misereor, em parceria com a Rede Papua Oeste (Westpapua Netzwerk) e a Associação dos Povos Indígenas da Ásia (AIPP – Asian Indigenous Peoples Pact). As atividades foram conduzidas em sete idiomas, refletindo a diversidade linguística e cultural dos povos presentes.
O Brasil foi representado por Cleocimara Gomes, do povo Piratapuya, coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN), e Mariazinha Baré, coordenadora da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM). As duas foram as únicas participantes brasileiras do encontro e levaram para o diálogo internacional as experiências e desafios do movimento indígena do Rio Negro e da Amazônia.
“É a primeira conferência com foco nas florestas tropicais realizada na Alemanha. Estamos aqui representando não apenas o Brasil, mas também o Rio Negro, com muito orgulho. É um privilégio poder contribuir e deixar um legado nesse espaço internacional”, destacou Cleocimara Gomes.
A conferência foi estruturada em torno de eixos temáticos que abordaram direitos indígenas, enfrentamento das violações desses direitos, defesa de defensores e defensoras indígenas, e o fortalecimento das mulheres e jovens indígenas.

Durante as apresentações, Cleocimara e Mariazinha compartilharam um panorama do movimento indígena brasileiro e latino-americano, explicando sua organização desde os níveis continentais, como a Coordinadora de Organizaciones Indígenas de la Cuenca Amazónica (COICA) — que representa povos de nove países amazônicos —, até as articulações nacionais e regionais, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a APIAM e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).
As lideranças destacaram também as principais frentes de luta dos povos indígenas: a autonomia e gestão territorial e ambiental, a educação e saúde indígena, as políticas de gênero, a bioeconomia e a valorização da cultura e dos saberes tradicionais. Outro ponto enfatizado foi o papel dos fundos indígenas e comunitários, como o Fundo Podáali e o Fundo Indígena do Rio Negro, que têm apoiado a implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e fortalecido as comunidades.
Além das trocas sobre os contextos de cada país, a programação incluiu um momento de visita aos locais históricos de Berlim, como o Memorial do Holocausto e o Muro de Berlim, que proporcionou uma profunda reflexão sobre as violências e resistências dos povos ao longo da história.
“Foi um momento de reflexão sobre as guerras do passado e sobre as lutas que seguimos enfrentando nos nossos territórios. As dores são diferentes, mas o desejo de paz e respeito é o mesmo”, relatou Cleocimara.
O evento contou com sete grandes apresentações e a presença de embaixadores, governadores e representantes de instituições da Alemanha. Em comum, entre as falas dos participantes de diferentes países, estiveram temas como o desrespeito aos povos indígenas, a violação de direitos, a violência nos territórios e as ameaças de grandes empreendimentos extrativistas, incluindo mineração e turismo ilegal.
“O que marcou muito este intercâmbio foi a diversidade dos povos indígenas e os desafios que todos enfrentam. Mas também a força e o compromisso com a floresta em pé”, destacou Regina Reinat, da Misereor, em mensagem de agradecimento.

Cleocimara também reforçou a importância do fortalecimento do movimento de mulheres indígenas, destacando que é fundamental que elas tenham voz e vez nos espaços de decisão.
“As mulheres indígenas precisam ocupar mais espaços e construir, junto com as lideranças, caminhos de autonomia e protagonismo. Nossa participação aqui foi uma forma de mostrar isso ao mundo”, afirmou.
A Conferência do Clima e das Florestas encerrou com o compromisso de seguir ampliando o diálogo entre povos indígenas e governos, construir novas estratégias de cooperação internacional e fortalecer ações conjuntas pela proteção das florestas tropicais — fundamentais para o equilíbrio do clima no planeta.